MUNDO NOVO
101ª Criação do Teatro da Garagem
TEXTO E Encenação Carlos J. Pessoa

DE 26 MARÇO A 10 ABRIL 2020
16 EPISÓDIOS online
[RTP PALCO – ESPETÁCULO EM CASA, DA RTP PLAY]

 

Aqui chegados, vamos continuar, temos de continuar, precisamos de continuar. Fazer Teatro urge, mais do que nunca. Um Teatro que sirva a diversidade das pessoas, que as socorra na reclusão, na descrença e no desespero. Acreditamos que a peste vai passar, tem de passar, que os danos são incalculáveis mas que o engenho superará o descalabro geral. Nesta súbita idade das janelas reclusas, dos confinamentos obrigatórios, surgem abraços longínquos, dados de longe e para longe, nas distâncias necessárias. À infecção contrapor o afecto, ao contágio viral contrapor o contágio da beleza. Mais do que nunca, que a beleza, a pouco e pouco, possa ser o soro dos dias.

O Teatro da Garagem, das catacumbas de sobrevivência, discreta, militante, gentil, não cessará o seu impulso de dizer e fazer Teatro; de dar voz a essa prodigiosa máquina de estreitar o ruído do tempo num cadinho de sopros, de vozes, de imagens rarefeitas, granulosas, vadias e amáveis. O Teatro da Garagem vem dar o seu contributo no socorro das vagas de bondade que se esboçam nestes tempos cruéis. Decidimos fazer e disponibilizar, on-line, o Mundo Novo, que estava previsto estrear dia 26 de Março no Teatro Taborda, em episódios filmados em vídeo conferência, na minha casa a partir das casas de cada actor e editadas posteriormente. Chamamos a este conjunto de procedimentos, Vídeo Teatro. O Mundo Novo é pois uma peça de Vídeo Teatro. São cenas incisivas, quase furtivas, trágicas e hilariantes, como incursões de uma guerrilha juvenil ou, preferivelmente, como namoros à socapa na penumbra dos dias, no assentimento dos olhares trocados de janela para janela, como Romeu e Julieta, só que, desta vez, de cada um com todos os outros, sem consumação previsível.

A peça Mundo Novo, adivinhava este cenário, previa-o, e é relativamente fácil de se colar a esta nova condição, de ensaios à distância, de encenação em emissão digital, de realidade virtualizada. Estar aqui e agora é estar em muitas casas num tempo acelerado, em que os dias parecem demorar semanas, em que as pessoas acumulam mudanças subtis, alterações de comportamentos, novas formas de reconhecimento. Testemunhamos a reescrita da privação e da privacidade. Procuramos reflectir sobre esta deslocalização imersiva de cada um, agarrado ao seu écran, em viagens quiméricas, e o estado de sítio que reforça o aprisionamento. Acompanhamos, empurrados pela história, estas mudanças, vemo-las, sentimos no ar que o Mundo Novo é já, isto mesmo, esta aguda percepção de uma estranha novilíngua cénica. Será esta uma descrição razoável do Vídeo Teatro? Somos fazedores de teatro agarrados aos dispositivos técnicos habituais de videastas, cineastas, fotógrafos, artistas plásticos… Talvez sejamos intrusos. Outros o foram, e ainda bem, do teatro.  Cruzamos pois o teatro antigo, o seu ruído, a sua patine, o seu cheiro e a sua luz, com a emergência sanitária, a codificação digital, os novos manuais de comportamento social; ao mesmo tempo a excitante novidade formal, tornando o digital, de algum modo, analógico, e a tenebrosa ameaça viral e securitária.

Não podemos deixar de ser livres, não podemos deixar abalar a nossa crença na surpresa e no amor. O outro não é a perdição viral, o outro não é a morte, o outro é a vida, o outro sou eu. Se o amor não vencer a perdição, tem de, pelo menos, ficar a promessa. O Teatro da Garagem promete isso, não pararemos. Que a catástrofe não seja apenas o fim, mas o princípio; um bom principio, um principio melhor.

O Mundo Novo será servido em 16 episódios disponíveis a partir de dia 26 de Março, véspera do Dia Mundial do Teatro, na RTP Palco – Espetáculo em Casa, da RTP Play. Até já.

Carlos J. Pessoa

FICHA TÉCNICA E ARTÍSTICA
Texto e Encenação Carlos J. Pessoa
Assistência de Encenação Ana Palma
Com Ana Palma (no papel de Violante, Pastilhas e Professora Jubilada), Inês Pereira (no papel de Bibota de Ouro, Nóligde e Licas Giraça), Pedro Miguel Jorge (no papel de El M, Velho Lenhador e Espermatozóide Coxo), Rita Monteiro (no papel de Slogan, Ativista da Boina, The Voice e Opinion Maker) e Sílvio Vieira (no papel de Dulcineio, Páuer, Molotov Assimétrico, Só Deus Sabe Se Me Vim, Unicórnio Millenial e Personagem Que Apareceu Há Bocado)
Música e Sonoplastia Daniel Cervantes
Cenografia e Figurinos Sérgio Loureiro
Luz Gonçalo Morais
Direção de Produção Raquel Matos
Produção e Comunicação Joana Rodrigues
Estagiários Aliyad Saiyad, Carolina Elvira, Catarina Couto, Emanuel Sousa e Maria Canhão

Parceiros Agrupamento de Escolas Gil Vicente, Escola Superior de Teatro e Cinema, Escola Superior de Educação de Lisboa e RTP Play
Financiamento Direção-Geral das Artes, Governo de Portugal | Ministério da Cultura
Apoios Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC, Junta de Freguesia de Santa Maria Maior

 M/14 | 16 episódios

Para assistir, clique no episódio:

EP1 – Quando o dia claro voltar a ser dia claro, não haverá arrependimento

EP2 – A Praga das Musas Desafinadas

EP3 – A Idade da Rede

EP4 – Flirtes e Líbido Descompensada

EP5 – Perdição ou Amor?

EP6 – Podiam namorar mas têm medo e não têm histórias para contar

EP7 – Na Paiã, numa estreita faixa entre blocos de apartamentos, autoestradas e campos agrícolas com casas abandonadas. Poderiam viver aqui? Construir uma casa?

EP8 – Não conseguem confiar uns nos outros

EP9 – Teatro das Etimologias Zarolhas

EP10 – Escadas Rolantes Vazias