FINGE | Carlos J. Pessoa | Jan-2013 | Música Daniel Cervantes

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FINGE

 

Personagens:

 

Camaleão 1 — Nuno Nolasco

Sofia e Patrícia  — Joaquina Chicau

Camaleão 2 — Miguel Mendes

Melanie e Vanda — Francisca Moura

Camaleão 3 – Nuno Pinheiro

Marta — Maria João Vicente

Camaleão 4 — Hélio Rosa

Maya e Adriana — Alessandra Armenise

 

 

 

Casa do Frio

 

Camaleão 1 Hoje acordei, de novo, a verter lágrimas por dentro. Mais frio cá dentro, que lá fora.

Camaleão 2 O frio de fora mais doce que o frio de dentro. Água gélida. Sorriso, sorriso, sim, de uma dor amável.

Camaleão 3 — O luto é, talvez essa coisa de morrer em vida, de adornar o júbilo de Ser com um regramento pontual, cuidadosamente descuidado, remirando, na noite, promessas. Mistério? Uma nuvem que não se assemelha a nada.

Camaleão 4 Hoje acordei, de novo, desinstalado, longe do que quer que tenha sido. Um estranho a combinar arranjos florais.

Camaleão 1 — Antigos inimigos surgem como aparições santas.

Camaleão 2 Caminhar, caminhar, pausadamente.

Camaleão 3 Um insecto incomodativo.

Camaleão 4Pássaros negros, desorientados, em voo picado, vazando-me os olhos.

Camaleão 1 Não vês?

Camaleão 2 Não me interessa.

Camaleão 3 — Não podes ver!

Camaleão 1 Não quero ver.

Camaleão 4 Não consigo ver.

Camaleão 1 Já te posso penetrar?

Camaleão 2 Vais-me magoar?

Camaleão 3 É preciso que doa até não doer….

Camaleão 4O sangue escorre das orbitas vazadas, pausadamente. Exigir, por uma vez, uma só vez, a palavra Perdão.

Camaleão 1 Só conheço uma única forma de libertação do jugo de Cronos: morrer em vida.

Camaleão 3 Possuir em luto.

Camaleão 2 (a Camaleão 4) Agora esfaqueio-te! Sente a faca, shiu, devagar… devagar…

Camaleão 4 Sem memória, amor meu, sem sinais… sequer o trânsito de uma só pluma.

Camaleão 1 Cronos perdeu.

Camaleão 2 Sente o sangue a escorrer-te do corpo…

Camaleão 3 Uma origem que se dissolve como açúcar na água, um rugido que parece fazer ecoar a palavra Gratidão.

Camaleão 4 Devo agradecer-te não é?

Camaleão 1 Queres que te cosa?

Camaleão 4 Não sei.

Camaleão 2 — Hoje acordei borboleta, não vi senão lírios de Monet, e fiquei atordoado com palavras inglesas que se desprendiam numa cultura que parecia vicejar, o “antes de tudo”, a “experiência transgressora”.

Camaleão 3 (para Camaleão 4) Vou apertar a corda em torno do teu pescoço…

Camaleão 4 Aperta devagar…

Camaleão 1 Estive e estarei, delicadamente, suspenso, como um selo postal entre as comissuras dos lábios.

Camaleão 3 — A presença ameaçadora da fera, do urso que me acompanhava na infância. Imobilidade. Matei-te. (Camaleão 4 morre)

Camaleão 2 Achas que a beleza é fome de morrer em paz com a dor?

Camaleão 1 Matei-te, não te ouço, não te posso ouvir.

Camaleão 3 Matei-te, estás morto meu amor.

Camaleão 2 Deixei de ser o espírito da nuvem que se fazia símile de coisa nenhuma.

Camaleão 3 Devo-me despedaçar, também, para que Diónisos possa, por fim, escapar do jugo da melancolia.

Camaleão 1 Devo interromper-me, como quem desliga, pausadamente, o ventilador artificial.

Camaleão 2 Algum calor levou-me para esse lugar onde vagueiam, serenamente, pedaços de humanidade.

 

 

 


Casa de Sofia

 

 Camaleão 1Não me chamar o nome que tenho, não ter este rosto. Algo… (adormece)

 SofiaCamaleão, acorda, acorda Camaleão! Não devemos desperdiçar comida, sobretudo a carne. Dá muito trabalho criar os animais! Brincadeiras são para garotos.

Camaleão 1 — Já estiveste nas grutas de Aracena? A rapariga mais bonita do mundo trabalhava numa loja de recordações; vendia postais! Desceu os degraus quatro a quatro, ia com pressa…

Sofia — Pressa porquê?

Camaleão 1 — Muitos turistas.

 Sofia –— Não estás a ser sincero.

 Camaleão 1  Ela tropeçou, caiu, esfolou os joelhos, as palmas das mãos e os cotovelos…

 Sofia E a cara?

Camaleão 1 A cara… Ela ficou sem os dentes da frente, estes aqui…ficou com a boca a escorrer sangue.

Sofia Não estás a ser sincero, estás sempre a fingir! Isso não aconteceu com a rapariga de Aracena! Essa é outra história!

 Camaleão 1 Que história? Não se trata de uma história, trata-se da vida de pessoas…Achas possível que alguém conheça melhor outra pessoa que o próprio?

 Sofia Talvez… porque é que perguntas?

 Camaleão 1 Quem sou eu?… (adormece)

Sofia Eh Camaleão, Camaleão! A rapariga dos dentes partidos ia a correr atrás de uma camioneta, de caixa aberta, na recta do seminário, aquela, lembras-te? Ladeada de ciprestes. O senhor Silva tinha feito a poda de inverno e não viu os garotos a correrem atrás da camioneta a tentarem apanhar boleia à socapa.

Camaleão 1 À socapa, sim, que alegria!

Sofia — A rapariga lançou-se para a frente, de braços e mãos estendidas, mas não conseguiu agarrar-se e caiu. Depois pararam.

 Camaleão 1 Quem?

 Sofia Tudo parou! O tempo parou. Ela, lentamente, começou a correr, cada vez mais depressa, e a gritar, cada vez mais alto, pela recta do seminário a fora, ladeada de ciprestes, com o sangue, o sangue, a escorrer-lhe da boca.

 Camaleão 1 Já sei, já sei! Desculpa… A boca dela era a gruta de Aracena, a gruta de Aracena!

 Sofia São várias grutas.

Camaleão 1 São várias mulheres, cada uma com a sua casa, a tua é Casa de Sofia! A rapariga, a rapariga de… Aracena, Aracena, parecia um Cristo mas…

Sofia — Ela começou a chorar de aflição.

Camaleão 1 –— Foi? Aflição…

Sofia Sim, tem o negócio dos pais! Não os pode abandonar, numa altura destas. É a sua obrigação! Estás a ouvir, é a sua obrigação!

 Camaleão 1 — Eu não me sinto obrigado a nada embora me obrigue a algumas tarefas… Quais são as tuas obrigações?

Sofia — Não adormeças! (ele adormece) Dar-te tempo. Dar-me tempo.

Camaleão 1 Porque é que precisamos de tempo?

Sofia Nada me prende, nada te prende…

Camaleão 1 –— Mentirosa, tão mentirosa!

 Sofia Não precisas de sofrer assim, de adormecer assim, não durmas! Tens de deixar de sofrer! Deixa de sofrer, acorda Camaleão, acorda!

 Camaleão 1 Cheiras… deixa cá ver… cheiras… a consolo moral. Que fragrância! Op lá, sinto-me desperto!

Sofia Põe-te no meu lugar!

 Camaleão 1Não me posso pôr no teu lugar.

Sofia –— Podes ao menos tentar compreender-me…

Camaleão 1Sofia! Compreender, compreender… Não ajuda lá muito. Se fosse a ti mudava de nome: Patrícia!

Sofia O meu nome profissional é Patrícia Delícia mas não te amo nem dou beijos, só selos.

Camaleão 1 — Só de ida, sem volta…

 Sofia Quero dinheiro para ser actriz!

Camaleão 1 Ser actriz não enriquece ninguém. Só, talvez, as más actrizes.

SofiaSe acumular o bastante posso fazer os papéis que muito bem entender!

Camaleão 1 Que papel é que gostavas mais de fazer?

Sofia Assistente de Drácula!

Camaleão 1 — E o próprio Drácula nunca te passou pela cabeça?

Sofia Só quero ser a sua assistente, principal, claro! Assim para aprender a arte de…

 Camaleão 1 — Chupar? Tens grandes, grandes ambições, para que não restem dúvidas. Admiro-te!

Sofia E tu Camaleão?

 Camaleão 1Eu, para além de ter muito sono, acho que gosto de viver… Já pensei em matar-me várias vezes mas tenho azar! Adormeço ou alguém telefona e não posso ir dormir. Tenho erecções por motivos bizarros… gajas gordas por exemplo! Não posso ver uma gaja gorda!… Tu és magra portanto não há problema… Não me olhes assim, tu és escanzelada!

SofiaQueres mudar a cor da pele, dos olhos…

Camaleão 1 — Chama-lhe isso, chama-lhe cosmética!

Sofia — Vais meter-te em grandes sarilhos…

Camaleão 1 Nem imaginas!

Sofia — Estás sempre a fingir, sempre a tentares levar a água ao teu moinho!

Camaleão 1 Que moinho, rapariga! Só gosto de gordas… Encharca-te de emoções como uma chuvada intensa; apanha uma grande molha; vai de mota sempre a acelerar contra a chuva…Era capaz de adormecer assim e não cair, não cair…

Sofia Como é que tens a lata de achar que me amas? Como?

Camaleão 1 Quem me dera apaixonar-me por ti! Não cair, não cair…

Sofia –— Tu não me conheces! Eu acredito no trabalho sério, honesto, dedicado…

 Camaleão 1 Não cair, não cair…

Sofia Eu sou…

 Camaleão 1 — Não cair, não cair… as tuas mãos, os teus pés, os teus cabelos, os teus seios, as tuas pernas… não cair, não cair…

 Sofia –— Achas que vou conseguir?

Camaleão 1 — Claro, claro! Dança, canta, ri e chora! Finge, finge!

Sofia –— Vou conseguir ser actriz, vou conseguir!

 Camaleão 1 — Não tropeces nos degraus de Aracena, não tentes ir à boleia do senhor Silva na recta do seminário, ladeada de ciprestes, não faças isso, não faças isso! Não quero ver, quero dormir, a boca aberta a sangrar! Meter o pénis na tua boca. Não quero ver! Não quero compreender. Ficar quieto. A mota acelera, acelera, chove intensamente em Aracena. Não vou cair… Adormeço. Não caio.

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