Teatro-Clip | Carlos J. Pessoa | Set-2007 | Música Daniel Cervantes

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Teatro-Clip

(11 canções de amor e uma cançoneta em formato MTV)

  

Clip 1

Canção do Pai

Calogero Capranzano – Fernando Nobre
Ângelo – Pedro Lacerda

 (Strangola il figlio autista e poi si consegna ai carabinieri.)

Ângelo… Ângelo… Ângelo… Lopez Lomong, the lost boy from Sudan! Ouviste, Ângelo? Um rapaz que fugiu à guerra, no Sudão, e foi adoptado por uma família americana rica, agora é campeão de atletismo; gostavas de ir para América, Ângelo? O teu pai esteve quase a ir para a América, mas falava mal inglês e tinha ciúmes da tua mãe, que falava muito bem inglês, no fundo, a culpa foi do inglês! O Lopez Lomong ganhou os 1500 metros no campeonato de atletismo dos Estados Unidos, já viste, aprendeu a correr enquanto fugia das balas; já imaginaste: pum pum pum, e temos um grande corredor. São milhões, milhões de dólares, milhões de dólares!

Perdoa-me. O teu pai está cansado e quer-te feliz, muito feliz. Um pai só deseja a felicidade dos filhos, mas um pai não é o dono da felicidade dos filhos, nem pode, por um instante que seja, julgar que é responsável por aquilo que apenas tu, meu filho, podes decidir. Vejo que se instalam de novo os demónios na tua alma, que te debates nas correias, que te agrides e pareces mimar os animais da floresta.

Sai daí, meu filho, sai daí! O pai vai buscar-te só que o pai não consegue trazer-te de volta! Só tu, por ti mesmo, podes regressar, meu filho, só tu podes largar os demónios da floresta e cantar de novo para a tua mãe, quando ela estende a roupa, só tu podes pegar nas ferramentas do teu avô e afagar a madeira, para fazeres a mesa em que partilharemos a ceia.

Perdoa este pai, que não é pai, que é menos que homem, sem merecimento do nome, nem sequer da vida.
Vês como é bonito o pôr-do-sol e as árvores e o mar da nossa ilha?
Já viste como é azul o mar da nossa ilha?
Não há azul mais azul que o do mar da nossa ilha!
Já viste as oliveiras?
Jesus Cristo, fizeste as tuas orações?!…
Lá no céu a mãe reza por nós não temas…
Não temas o sol! O pai conduz-te, o pai diz-te o que deves fazer: faz os teus deveres!

As vogais primeiro, o A como quem abre as asas e experimenta um voo breve; o pardalito cego, que recolhemos um dia, agarra-o bem, não tenhas medo do pardalito cego, não tenhas medo do A, o A é a tua primeira vogal, começa a voooo…ar!

Depois o E! Lembras-te da tua mãe a pentear-te, nunca deixavas que te cortassem o cabelo, e a tua mãe, após o banho, contava-te histórias e penteava-te. O E alisa-te os cabelos, como ideias confusas que se tornam o regato onde molhas os pés, após a caçada com o teu avô.

O I é Deus nosso Senhor a levar a tua mãe. O I foi o templo que acolheu as nossas preces e a nossa solidão; o I é o vento que assobia na casa vazia, não tenhas medo do I, meu filho! Ah demónios, larguem o meu filho, deixem o meu filho, regressem à vossa floresta, que mal vos fiz demónios malditos, não fui eu que um dia quis o céu, não fui eu! Ângelo, Ângelo, sem o I que seria do O?

O O é o oo na barriga da mãe, a aquecer-te, a mimar-te, a barriga da tua mãe que beijei, onde escutaste as primeiras delícias, onde soubeste da música e do leite da bondade humana: oo, oo, oo

E não te esqueças do U, que nos une para sempre … Cumpre o teu dever com honra e justiça, ama o próximo, luta pelos desvalidos, pelos náufragos que acorrem à nossa ilha, acredita no teu semelhante, lê no céu os augúrios dos pássaros, recolhe-te e, se for caso disso, espera a tua oportunidade.

Sê feliz, meu filho, sê feliz e não desistas nunca de acreditar que vale a pena viver, nunca desistas da vida, nunca. (Estrangula o filho.)

 (Ouvem-se cigarras e corvos.)

Paro o carro, sento-me à sombra de uma figueira: à minha frente uma avenida de ciprestes, ao fundo…

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